A realização da COP30 no Brasil, pela primeira vez sediada na Amazônia, marcou um momento decisivo para o debate global sobre clima e desenvolvimento. Entre os temas que ganharam centralidade esteve o financiamento para a Amazônia — não apenas em termos de volume de recursos, mas, sobretudo, sobre como esses recursos são estruturados e direcionados.
Nesse contexto, a NESsT intensificou sua atuação como ponte entre o debate global e a realidade dos territórios. Para aprofundar essa agenda, apresentamos a seguir uma conversa com Cairo Bastos, gerente de programas da NESsT Brasil, que compartilha reflexões sobre os principais avanços observados em Belém, os aprendizados acumulados pela organização e os caminhos para fortalecer um modelo de desenvolvimento que nasce dos territórios e dialoga com os desafios globais.
A discussão sobre financiamento para a Amazônia não parece distante da compreensão das pessoas? Por que esse tema deveria interessar ao contribuinte, ao cidadão comum?
Cairo: Pode parecer um tema distante, mas, na prática, o financiamento da Amazônia afeta diretamente a vida de todos nós. Sempre que alguém compra uma casa, usa um cartão de crédito ou busca recursos para abrir um negócio, está lidando com o sistema financeiro. Ele é, basicamente, o mecanismo que conecta quem tem capital disponível com quem precisa de recursos para consumir, investir ou produzir. Diversos agentes compõem esse sistema: bancos, fundos de investimento, bancos multilaterais, órgãos reguladores, entre outros.
Para proteger a Amazônia, precisamos — e muito — do sistema financeiro. A conservação da floresta exige recursos em várias frentes ao mesmo tempo: garantir que comunidades locais estejam protegidas e tenham meios de vida dignos, apoiar negócios que inovam de forma sustentável e manter esforços contínuos de conservação em larga escala. Municípios precisam de recursos para conservar seus territórios; estados precisam se preparar para secas e desastres naturais; cooperativas querem crescer; empresas querem investir. Todos esses atores têm algo em comum: precisam de financiamento.
Hoje, grande parte dos recursos que chegam à Amazônia é de origem pública, ou seja, vem do dinheiro do contribuinte. É aí que o tema deixa de ser abstrato e se torna diretamente relevante para o cidadão comum. É o dinheiro público que capitaliza instituições como o BNDES, que financia projetos na região. É a contribuição do Brasil — e de outros países — para bancos como o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) que viabiliza investimentos na Amazônia. São também recursos públicos que sustentam políticas, fundos e programas de reflorestamento e desenvolvimento regional.
Por isso, a pergunta central não é apenas quanto se investe, mas como e para quem esses recursos estão sendo direcionados. Eles estão ajudando a preservar a floresta, gerar renda local e reduzir desigualdades? Ou estão financiando atividades que degradam o território e concentram riqueza?
Quando vemos, por exemplo, recursos sendo direcionados para a exploração de petróleo próximo à Foz do Amazonas — com riscos ambientais já amplamente conhecidos — é legítimo questionar se esse é o destino que a sociedade brasileira deseja para sua riqueza natural. No fim das contas, discutir financiamento para a Amazônia é discutir qual modelo de desenvolvimento queremos, quem se beneficia dele e qual legado estamos deixando para as próximas gerações.
Como a NESsT tem atuado nessa agenda? Em 2024, vocês lançaram um relatório com recomendações para financiadores. Pode explicar melhor?
Cairo: A NESsT começou a pautar de forma consistente o debate sobre financiamento para a sociobioeconomia na Amazônia em 2022. Esse foi, inclusive, um dos principais motivos pelos quais entrei na organização.
A iniciativa surgiu a partir da visão da nossa fundadora e então CEO, Nicole Etchart, que percebeu que a NESsT, por ocupar uma posição estratégica entre financiadores e negócios comunitários, poderia ir além do apoio direto aos empreendimentos. Poderíamos também aproximar esses dois mundos, facilitar o diálogo e contribuir para que mais recursos chegassem de forma adequada aos territórios.
De um lado, escutamos negócios relatando dificuldades para acessar financiamento nacional e internacional. Do outro, financiadores apontavam a falta de maturidade dos empreendimentos como um entrave. A proposta foi partir da escuta: ouvir profundamente lideranças dos negócios apoiados e sistematizar seus principais desafios e recomendações.
Esse processo envolveu uma escuta ativa intensa, tanto individual quanto coletiva, complementada por entrevistas com profissionais de bancos multilaterais e agências de desenvolvimento. Esse aprendizado fundamentou o relatório lançado em 2024 e segue orientando nossas recomendações.
Quais foram os principais achados?
Cairo: O principal achado do estudo é que, embora a bioeconomia amazônica tenha grande potencial econômico e ambiental, a maioria das decisões de financiamento ainda não atende adequadamente às necessidades de povos indígenas e comunidades locais que lideram soluções sustentáveis.
A principal recomendação é que investidores públicos e privados reorientem seus mecanismos de financiamento para melhorar o foco, a acessibilidade, a eficácia e a eficiência dos recursos destinados à bioeconomia, colocando as vozes e prioridades das comunidades locais no centro das decisões de investimento.
O relatório se baseia em evidências concretas, ancoradas nas vozes das comunidades e dos negócios da Amazônia. Não falamos de teoria, mas de experiências reais que mostram o que funciona, o que não funciona e por quê.
E quais são as principais barreiras que vocês encontraram para o financiamento da sociobioeconomia?
Cairo: De acordo com lideranças e produtores de comunidades tradicionais que entrevistamos, as principais barreiras são estruturais e burocráticas. Elas estão nas exigências dos fundos, na rigidez dos instrumentos financeiros e, sobretudo, na dificuldade de reconhecer o valor real gerado pelos negócios comunitários.
Esses empreendimentos não produzem apenas alimentos ou insumos — eles geram preservação ambiental, valorização cultural, governança territorial, água e ar limpos e continuidade dos recursos naturais. No entanto, esses benefícios raramente são incorporados nas análises financeiras tradicionais.
Além disso, são comuns exigências de garantias incompatíveis com os territórios, prazos desalinhados com os ciclos produtivos da floresta e instrumentos excessivamente rígidos. O problema não é a falta de capacidade local, mas um sistema financeiro ainda pouco preparado para lidar com a complexidade amazônica.
O que a NESsT propõe para ajudar financiadores a valorizar a sociobioeconomia?
Cairo: Nosso principal diferencial é a capacidade de avaliar, monitorar e comunicar impacto de forma consistente. Quando apoiamos os negócios na coleta de dados e na construção de narrativas de impacto, eles passam a compreender melhor seu papel na transição para uma economia de baixo carbono e se tornam mais preparados para acessar novos e maiores volumes de recursos.
Além disso, oferecemos um trabalho aprofundado de mentoria, que fortalece gestão, governança e estratégia financeira, preparando esses negócios para dialogar com diferentes tipos de financiadores.
Ao defender o financiamento direto, a NESsT não perderia seu papel como organização que faz esta conexão?
Cairo: (Risos) Essa é uma pergunta recorrente — e parte de uma compreensão limitada sobre o papel das organizações da sociedade civil. A NESsT existe para mobilizar pessoas, recursos e conhecimento em torno de objetivos coletivos. Nosso foco é ampliar a geração de trabalho e renda digna por meio do fortalecimento de negócios de impacto.
Mesmo quando defendemos o financiamento direto, nosso papel não desaparece — ele se transforma. Continuamos atuando de forma sistêmica, criando pontes entre territórios, capital e políticas públicas. Sempre haverá negócios que precisarão de capital paciente, apoio técnico e tempo para crescer. É aí que seguimos sendo relevantes: como catalisadores de impacto social e ambiental.
Finalizamos 2025 com o maior evento climático do mundo acontecendo no Brasil, em Belém — a primeira vez que um evento dessa magnitude ocorre na Amazônia. Um dos temas mais discutidos foi o financiamento para a Amazônia. O que houve de mais relevante?
Cairo: Dois pontos foram especialmente relevantes. O primeiro foi o avanço de novos mecanismos de financiamento de longo prazo, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que propõe pagamentos previsíveis para países que mantêm suas florestas em pé, tratando a conservação como uma estratégia econômica estruturante.
Diferentemente dos fundos tradicionais, o TFFF pretende captar R$ 125 bilhões no mercado a juros reduzidos, estruturando-se como um ativo de baixo risco. Esses recursos serão reinvestidos em projetos com maior taxa de retorno, gerando um diferencial financeiro (spread). Parte desse resultado será direcionada aos países que abrigam florestas tropicais, de forma proporcional à área preservada, enquanto o capital emprestado será devolvido aos investidores com rentabilidade.
Esse modelo, em tese, cria condições para o desenvolvimento sustentável das comunidades locais e para a geração de receitas pelos países florestais por meio da conservação. Trata-se de um mecanismo que reconhece, de forma mais justa, o valor econômico dos serviços ambientais prestados pelas florestas — embora ainda precise avançar no desenho de como esses recursos chegarão diretamente às comunidades.
O segundo ponto foi o fortalecimento do debate sobre financiamento direto para povos indígenas e comunidades locais, com compromissos mais claros para que os recursos cheguem efetivamente a quem protege a floresta no dia a dia.
E como foi a atuação da NESsT em Belém?
Foi muito positivo ver a sociobioeconomia ganhar centralidade na COP30 — não mais como um conceito abstrato, mas como uma agenda prática: como estruturar capital paciente, instrumentos híbridos e políticas públicas capazes de apoiar negócios locais em escala.
Foi nesse contexto que o trabalho da NESsT se destacou. Atuamos como ponte entre o debate global e a realidade dos territórios, trazendo experiências concretas de negócios da sociobioeconomia, muitos liderados por pessoas negras, indígenas e mulheres, que já geram impacto real e renda digna na Amazônia.
Conseguimos demonstrar que as soluções existem; o que falta são instrumentos financeiros adequados. A COP30 reforçou que financiar a Amazônia é uma estratégia climática, social e econômica — e é exatamente nesse ponto que a NESsT atua.
Por que a presença direta de lideranças comunitárias nos espaços de decisão é tão estratégica?
Cairo: Porque representatividade importa, mas é a participação qualificada que transforma. Quando lideranças indígenas e comunitárias ocupam fóruns como COPs, G20 ou a Cúpula da Amazônia, elas influenciam narrativas, prioridades e até o desenho de políticas públicas e mecanismos financeiros.
Como isso se materializou recentemente?
Cairo: De forma muito concreta. Apoiamos a participação de negócios como CooperSapó, Manejebem e Plantus no Brasil Amazon Summit, em Manaus; da Agrosolidária, da Colômbia, em agendas de mercado na Suécia; além de ações de visibilidade, como a presença de produtos indígenas da ABEX na Feira Nacional de Artesanato, em dezembro de 2025.
Na COP30, em especial, contribuímos para a participação de Ricardo Calderón (Agrosolidária), Keivan Hamoud (ASSOAB) e Ngrenhkarati Xikrin (ABEX), que estiveram em painéis debatendo financiamento para a bioeconomia, influenciando e aprendendo em pautas centrais do financiamento climático.
E a atuação da NESsT na Rede Pan-Amazônica?
Cairo: Representa escala e incidência política. Desde 2023, co-lideramos a Força-Tarefa de Acesso a Financiamento junto à Amazon Investor Coalition, alinhando expectativas e mostrando que investir na sociobioeconomia é viável — desde que o capital esteja disposto a aprender.
Qual é o principal aprendizado desse processo?
Cairo: Que lideranças indígenas e comunitárias estão preparadas para decidir sobre financiamento. O gargalo está nas estruturas financeiras, ainda pouco flexíveis e pouco abertas à escuta.
E o papel da NESsT daqui para frente?
Cairo: Continuar sendo ponte. Entre capital e território. Entre política global e realidade local. Nosso compromisso é com um modelo de desenvolvimento que nasce da floresta, valoriza o protagonismo local e responde aos desafios globais do presente e do futuro.

